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Capítulo 07

O capítulo sete do livro de Atos dos Apóstolos é uma das seções de maior importância neste escrito por diversas razões. Além de registrar o discurso do primeiro mártir da Igreja, demonstra uma das mais completas explanações veterotestamentárias que se tem notícias, onde Estevão parece querer demonstrar (se em sua defesa ou não, tiraremos depois nossas próprias conclusões) que ao longo de sua história, o povo judeu sempre procurou rejeitar aqueles os quais o Senhor havia levantado para libertá-los. O primeiro versículo é uma sequencia natural do que não termina no último versículo de At 6, quando o sumo sacerdote, figura máxima do judaísmo, o inquere se ele realmente tem blasfemado contra o santo lugar e contra lei (At 7.1). Ouvimos então o longo discurso de Estevão para com seus acusadores.

A primeira fala de Estevão faz menção direta de quem os judeus consideram seu pai espiritual: Varões, irmãos e pais, ouvi: O Deus da glória apareceu a nosso pai Abraão, estando na Mesopotâmia, antes de habitar em Harã, e disse-lhe: sai da tua terra, e dentre a tua parentela, e dirigi-te à terra que Eu te mostrar (At 7.2,3). Estevão inicia seu discurso e não perde tempo com uma longa saudação, o que parece não ser algo exigido no Sinédrio. Sua primeira atenção é sobre o chamado de Abraão. Este Deus da glória havia chamado Abraão na Mesopotâmia, bem distante da terra dos judeus, na região entre os rios Tigre e Eufrates, e há um destaque especial nisso pois parece-nos querer Estevão deixar claro que a revelação de Deus não se limita as terras judaicas e muito menos ao templo. Este longa extensão de terra perfeitamente poderia dizer respeito a Ur dos Caldeus, pois no uso helenístico da palavra "Mesopotâmia" aplicava-se ainda a uma área maior que incluía a Babilônia do Sul, e consequentemente, Ur. Porém, a luz de Gênesis 11.32;12.1, o chamado divino se deu em Harã. O que teria acontecido? Analisemos mais um pouco a Bíblia Sagrada, em Gn 15.7 e veremos o Senhor falando com Abraão que o tirara de Ur dos caldeus. É provável que tenha havido um primeiro chamado em Ur e a repetição dele em Harã.

Estevão segue seu discurso dizendo que "Então, saiu da terra dos caldeus, e habitou em harã. E dali, depois que seu pai faleceu, Deus o trouxe para esta terra em que habitais agora, e não lhe deu nela herança, nem ainda o espaço de um pé; mas lhe prometeu que lhe daria a posse dela, e depois dele à sua descendência, não tendo ele filho (At 7.4,5). Abraão partiu de sua terra natal em obediência ao mandato divino. Após a morte de seu pai, Terá, o Senhor Deus o trouxe para a terra que lhe prometera. A expressão utilizada por Estevão é esta terra em que habitais agora, e nos transmite a idéia de que na verdade, o cumprimento desta promessa é vivido plenamente pelos judeus, que são descendentes de Abraão. Porém, o próprio pai da fé não tinha ainda na terra prometida o cumprimento da promessa de Deus em sua vida, pois ele próprio não herdou nem o espaço de um pé do lugar. A promessa ainda parecia ser inalcançável, pelo simples fato de Abraão não possuir ainda herdeiros.

Ainda assim, o Senhor falou: Que a tua descendência será peregrina em terra alheia, e a sujeitariam a escravidão e a maltratariam por quatrocentos anos. E Eu julgarei que os tiver escravizado, disse Deus. E depois disto, sairão, e me servirão neste lugar. E deu-lhes o pacto da circuncisão; e assi m gerou a Isaque e o circuncidou no oitavo dia; e Isaque a Jacó; e Jacó, aos doze patriarcas (At 7.6-8). Deus ainda fez uma promessa adicional, predizendo um aspecto negativo da descendência de Abraão: viriam a ser peregrinos e escravizados, e isso por quatrocentos anos. Somente depois disto, esta nação seria julgada e o povo de Deus trazido para Canaã. Assim, Estevão lhes explica que eles próprios são o cumprimento desta promessa de Deus. Como sinal desta promessa, Deus instituiu um rito, chamado circuncisão, um sinal exterior da dedicação a Deus, que era o lado humano da promessa: se quisessem ser contados como povo de Deus, deveriam ser circuncidados. Vemos claramente que os principais fatos ligados a religião judaica haviam sido dados sem a necessidade de um templo ou de observação legalista, mas sim por fé. O pensamento de Estevão parece levar os seus ouvintes a uma profunda reflexão acerca da vontade e da obra de Deus.

Estevão se distancia dos primórdios do nascimento da nação judaica e se posiciona sobre a primeira grande oposição do povo de Israel contra aquele o qual o Senhor escolheu para reinar, no caso, José. A história começa com a inveja e com o ciúmes dos seus irmãos para com o seu chamado divino (representado pelos sonhos de José), o que culminou que o venderam como a um escravo. Porém, Deus estava com ele, e tudo isso fazia parte de um perfeito plano de Deus, que elevou José a posição de governador do Egito e propiciou a oportunidade na qual os israelitas se achegaram até esta nação. Uma vez que a fome assolou a terra, e o Egito possuía alimentos, os patriarcas desceram ao Egito, e, numa dessas peregrinações, descobriram que o governador do Egito era, na verdade, o seu irmão que eles haviam vendido. Assim então, José mandou chamar Jacó e sua parentela, o que totalizou cerca de setenta e cinco almas, e ali, morreu Jacó e seus filhos todos. Foram todos sepultados sem estarem de volta a Canaã, porém, ainda aguardando com fé o cumprimento da promessa (At 7.9-16).

Aproximando-se, porém, o tempo da promessa que Deus havia feito a Abraão, o povo cresceu e multiplicou-se no Egito. Levantou-se ali, um outro rei, e este não conhecia a José e, com astúcia, veio a instituir a escravidão e até mesmo a obrigar os pais que matassem todos os meninos nascidos para que não mais se multiplicassem (At 7.17-19). Aqui encerra-se a primeira parte do discurso de Estevão, e ele entrará na segunda e mais longa extensão da narrativa, falando acerca de Moisés e sua liderança no meio do povo de Deus, que irá abranger dos versículo 21 a 44, e depois acerca da construção do templo e da onipresença de Deus (v. 45 a 50). A partir daí, Estevão entra novamente no seu discurso tendo o povo de Israel como seu alvo, quando os chama de Homens de dura cerviz e incircuncisos de coração e ouvidos, vós sempre resistis ao Espírito Santo; assim como fizeram vossos pais, vós também o fazeis (At 7.51). Estevão agiu da forma mais dura possível com o povo para chamar-lhes a atenção para a verdade do evangelho. Por não quererem ouvir as boas novas de salvação, eles eram tidos como pessoas de dura cerviz, isto é, que não conseguem se humilhar e reconhecer que estão errados. A expressão "incircuncisos" teria múltiplo impacto sobre Israel: (1) Eles criam que o simples fato de terem seus prepúcios cortados era suficiente para serem tidos como participantes da aliança, portanto, serem chamados de incircuncisos era como se disséssemos a eles de que eram alienados a perfeita vontade de Deus, e (2) Era um termo com o qual Israel identifica os gentios, especialmente os filiesteus. Estevão estava dizendo que os judeus por não crerem no evangelho eram como os gentios segundo a visão do velho concerto. Esta incircuncisão era de ouvidos e coração. De ouvidos, pois se negavam a ouvir o evangelho da verdade, e isso os tornava incircuncisos de coração, pois sem dar ouvidos não podiam nem crer e nem se converter a verdade. Essa atitude era marca registrada de Israel, que no passado rejeitara o ministério de muitos profetas, chegando até mesmo a persegui-los (a exemplo, Jeremias), inclusive aqueles que anunciavam a vinda do Justo (menção de Jesus Cristo). Uma vez que não deram crédito as palavras dos profetas, não puderem crer em Jesus como o Messias e também o mataram. A traição e o assassinato eram condenados pela lei que eles afirmavam guardar, porque então mataram o Messias? O fato de terem recebido a lei pelo minstério de anjos não lhes causou temor maior, muito pelo contrário.

Estas palavras foram ouvidas de forma dura pelos ouvidos dos judeus que ali estavam. Rilhar os dentes identificava uma situação de fúria interior, pois, apesar do duro discurso de Estevão ter ferido a consciência dos judeus, os mesmos não se arrependeram de seus pecados. Numa situação de intenso perigo, por mais uma vez Estevão é cheio do Espírito Santo (At 7.55), e, olhando para o céu, tem uma visão e viu a glória de Deus e Jesus, que estava a sua direita, e disse que via os céus abertos e o Filho do homem em pé a destra de Deus (At 7.56). É notável que Estevão já era um homem cheio do Espírito (At 6.3,5,8,10). Porém, diante da possibilidade da morte eminente pela feroz proclamação do evangelho, recebeu da parte de Deus uma plenitude especial, na qual pôde diante da visão celestial ver o Filho do homem em pé e não assentado (é provável que a manifestação do Cristo em pé o revele como um advogado em pé diante do Pai para pleitear a causa de Estevão e recebê-lo em Sua Glória). Os homens da cidade se arremeteram contra ele de forma unânime e, lançando-o fora da cidade, o apedrejaram. As testemunhas deixaram suas vestes aos pés de Saulo, o futuro "Paulo". Não participou ele do apedrejamento, porém consentia nele. Enquanto era apedrejado Estevão cheio do Espírito orou, e de forma gloriosa e sábia: em primeiro lugar orou para si próprio pedindo que Jesus recebesse seu espírito, e, ajoelhando-se, orou pedindo ao Senhor que não lhes imputasse aquele pecado, tendo depois, morrido. Era o primeiro mártir da Era do Espírito e da Igreja do Senhor.

 

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Comentários e Contexto

(1) Aqui neste capítulo estamos nos utilizando do texto da ARC, comparando-o ao texto da ARA.

(2) At 7.4, Há uma certa dúvida quanto a este versículo, pelo fato de que Abraão tinha setenta e cinco anos quando saiu de Harã, e, desta forma, seu pai ainda era vivo, de forma que Estevão teria errado seu discurso. Porém, a versão samaritana de Gênesis afirma que Terá morreu não com 205 anos, mas com 145, o que validaria a mensagem do mártir, se este estivesse utilizando-se de uma versão variante de Gênesis. Já que o próprio escritor do livro utiliza-se da septuaginta, e não há nenhuma variante grega com esta diferença textual, pode ser que Lucas utilizava-se também de fontes documentárias ao invés de seguir livremente o discurso.

(3) At 7.5, espaço de um pé, cf. Dt 2.5.

(4) At 7.6, Os quatrocentos anos é uma cifra arredondada, na verdade, o tempo foi de aproximadamente 430 anos.

(5) At 7.14, A cifra de setenta e cinco almas é oriunda da septuaginta, o texto hebraico traz 70 almas.

(6) At 7.16, O sepultamento em Siquém poderia ser uma forma de instigar uma reflexão nos judeus, uma vez que esta região fazia parte do território dos odiados samaritanos? Ou estaria predizendo a futura evangelização da Samaria?

 

Viva a Palavra

Mesmo diante das mais terríveis circunstâncias, não deixe de amar e de bendizer ao Senhor, sabendo que a sua promessa virá!

José, vendido ao Egito e feito mordomo na casa de Potifar, não foi impedido de alcançar a promessa divina. Deus transforma o nosso fracasso em vitória!

Que possamos ser cheios do Espírito e de ousadia como foi Estevão, e proclamarmos aos cativos o evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo.