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Capítulo 01, versículos 01 a 13

O primeiro versículo da epístola, epístola segue a linha tradicional de como se escrevia cartas nos tempos neotestamentários, e Pedro não foge a esta regra: identifica-se com seu nome, sua credencial e o destinatário da sua epístola. Lemos no versículo a seguinte saudação: Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, aos estrangeiros dispersos no Ponto, na Galácia, Capadócia, Àsia e Bitínia, eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo: graça e paz vos sejam multiplicadas (1 Pe 1.1,2). Há algumas realidades que necessitam sem identificadas já nestes primeiros versículos: Pedro identifica sua vocação (ser um apóstolo, isto é, enviado de Jesus Cristo), e os seus destinatários. É interessante notar que se compararmos estas regiões com At 2.9,10, veremos uma igualdade de algumas das nações presentes na ocasião do Pentecoste (que com certeza foi marcante para Pedro). Como não há nenhum registro sólido acerca de uma incursão missionária da Igreja nestes povos sendo citada de forma direta no NT, esta preocupação quase pastoral de Pedro diante das dificuldades que estes cristãos enfrentavam nos faz refletir bem o cuidado que nós, obreiros do Senhor temos de ter com o rebanho do Pai. Pedro chama estes homens e mulheres de eleitos, remetendo a realidade da doutrina da eleição, pois foram eles eleitos segundo a presciência de Deus Pai. Não queremos aqui pender para nenhuma vertente teológica quanto a eleição, mas o que identificamos é que a eleição nunca é apresentada na evangelização, mas sim, quanto o assunto é tratar das responsabilidades que cada cristão tem com o evangelho por haverem sido eleitos por Deus. Não podemos necessariamente crer por este versículo que estes irmãos foram eleitos porque Deus já sabia que eles receberiam a graça redentora ao ouvirem a pregação do evangelho, mas sim, fazer menção de que Deus, antecipadamente já conhecia esta realidade pelos seus atributos divinos, sendo, portanto, a cada crente a responsabilidade última de agir conforme um eleito de Deus (isto é, de antemão, Deus conhece todos os que hão de se salvar, mas não impediu a ninguém de conhecer e receber a sua graça). Nós fomos eleitos em santificação do Espírito, isto é, a eleição será identificada pela santificação do Espírito ocorrendo em suas vidas, isto é, Deus os elegeu, e o Espírito as santificou. ainda nesta mesma linha de pensamento, isto ocorreu para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo, uma expressão que nos fará menção da aceitação e obediência ao ensinamento e mensagem do evangelho. A expressão seguinte é um pouco confusa, mas provavelmente remonta a realidade de que, pelo derramamento do sangue de Cristo, os méritos e a ação da obra salvífica de Cristo são transferidos aqueles que obedecem o chamado do evangelho. A estes, deveriam ser multiplicados a graça e a paz.

Encerrada a saudação, Pedro inicia suas ações de graça, onde bendize a Deus, Pai do Senhor Jesus Cristo que, segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança pela ressureição de Jesus dentre os mortos (1 Pe 1.3). Quando o versículo utiliza a expressão gerar de novo, está fazendo menção a regeneração, ou novo nascimento (Jo 3.1-15; Jo 20.22). Embora estejamos vivos carnalmente, estamos mortos espiritualmente em delitos e pecados (Ef 2.1,2) e, para que nossa comunhão com Deus fosse plenamente restaurada, era necessário que alcançássemos da parte de Deus uma nova vida espiritual, isto é, que fôssemos vivificados para uma viva esperança, que é a herança incorruptível, incontaminável e que não se pode murchar, guardada nos céus para nós (1 Pe 1.4). Esta herança, que vem acompanhada de três adjetivos nos remonta a promessa da herança da Terra Prometida ao povo judeu que era a causa maior de sua peregrinação no deserto. Assim para nós, esta herança representa tanto a salvação presente que nós já vivemos como cristãos na face da terra, como a vida eterna no Reino de Deus, a causa maior de nossa peregrinação nesta mundo de horror. Para alcançarmos esta herança nós estamos guardados, mediante a fé, na virtude de Deus, para a salvação já prestes a se revelar no último tempo, em quem nos grandemente nos alegramos, ainda que enfrentemos duras tentações. É esta a proposta maior da epístola, revelar que as tribulações desta vida não se pode comparar com aquilo que está reservado para nós, e que será plenamente revelada no último tempo, expressão essa que vem do grego kayro eschato, e, segundo a terminologia da antiga cristandade, o período final do fim dos tempos, ou melhor, o último capítulo dos tempos do fim. Esta realidade na vida do crente faz com que ele grandemente se alegre (1 Pe 1.6), isto é, tudo o que foi apresentado deste então nos cinco primeiros versículos são algo no qual o povo de Deus deve alegrar-se, ainda que, por sermos cristãos, sejamos convidados a enfrentar muitas provações, para que a prova da vossa fé, muito mais preciosa que o ouro que perece e é provado pelo fogo, se ache em luvor, honra, glória e na revelação de Jesus Cristo (1 Pe 1.7).

Neste sétimo versículo Pedro procura aplicar todas as dificuldades que são citadas no versículo 6 dentro de um algo maior chamado soberania de Deus, e, entende as tentações e provações como um instrumento de Deus para que nossa fé seja provada e nossa vida seja purificada de todo mal. A analogia utilizada pelo escritor, que relembra o método no qual o ouro é separado das impurezas, por meio do fogo, relembrando que nossa fé é mais preciosa do que este que perece. Esta utilização da purificação do ouro por meio do fogo parece-nos lembrar de que pela ação do fogo as coisas materiais são purificadas. Espiritualmente tratando, podemos fazer menção do fogo espiritual (Mt 3.11) proveniente do Espírito de Deus purificando o crente de suas impurezas carnais e o modelando segundo a imagem e caráter de Jesus Cristo, o Mestre por excelência. Esta purificação espiritual, que aqui é chamada de prova de nossa fé, tem o propósito de fazer com que a mesma se ache em louvor, honra e glória na revelação de Jesus Cristo, que provavelmente faça menção do julgamento final. É neste Senhor Jesus Cristo que nós, não havendo visto, o amais; e no qual, não o vendo agora, mais crendo, vos alegrais com gozo inefável e glorioso (1 Pe 1.8), alcançando o fim da vossa fé, a salvação da alma (1 Pe 1.9). Estas duas expressões são interessantes pois o versículo 8 parece nos mostrar que os leitores não foram contemporâneos do ministério público de Jesus Cristo, eles já demonstram em suas vidas, por amar e crer, a alegria com gozo inefável e glorioso que indica uma manifestação da resultado da fé em Cristo agindo nas pessoas como uma perspectiva presente do Reino de Deus na terra, antecipando, com isso, o objetivo maior de ser em Cristo: a salvação da alma.

É acerca desta salvação que profetizaram os profetas desta graça gloriosa que havia de vir, manifestada pelo Cristo de Deus. É dificil afirmar que se estes profetas eram os do AT ou se devemos também incluir alguns profetas cristãos primitivos (Ef 4.11), mas, de qualquer forma, a suma é a de que apesar deles profetizarem uma salvação plena e eterna para os tempos do fim, ela já era presente e manifesta aos olhos daqueles que criam, pela obra da graça trazida pelo Cristo. E o elemento inspirador da profecia era o Espírito de Cristo, que demonstra a atuação do Espírito Santo no período anterior ao Pentecostes (1 Pe 1.11). Nota-se claramente no versículo 11 duas etapas nas quais esta salvação foi efetivada: primeiro, testificando dos sofrimentos que a Cristo haviam de vir, e em segundo, a glória que se lhes havia de seguir. Assim como para o Cristo estava ordenada a humilhação e depois a glorificação, nós, discípulos do Messias de Deus, passaremos por um processo parecido: por meio de nossa humilhação devido a nossa fé, seremos posteriormente exaltados por Deus assim herdando o que nos está prometido. Estas promessas profetizadas pelos profetadas foram-lhe reveladas não meramente para eles somente, mas para nós hoje, que cremos no Cristo e na sua morte expiatória. A ação do Espírito Santo continua intacta, pois Ele anunciou a salvação aos profetas do AT e continua inspirando na Igreja o anúncio da salvação por Jesus Cristo, porém, no passado como uma promessa e agora como cumprimento. É glorioso identificar neste trecho que o escritor cita o Espírito Santo como um enviado do céu, provavelmente fazendo menção da promessa de Cristo (Jo 14.16,26; 16.7) e, se Cristo o enviou, é porque o seu messiado foi aprovado por Deus, pois o cumprimento da palavra de Cristo comprova ser Ele e seu ministério verdadeiros e aprovados por Deus. Esta obra de salvação é algo tão sublime que até os anjos desejam atentar. Isto traz, aos leitores de Pedro, uma idéia gloriosa: apesar da cristandade e a fé cristã serem algo desprezados pela humanidade e pelo sistema que rege os valores deste mundo, sob o ponto de vista divino, até mesmo os anjos estão observando a obra de salvação e a expansão do reino e da Igreja Vitoriosa sobre a face da terra.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Comentários e Contexto

(1) 1 Pe 1.2, Deus Pai, é uma utilização interessante de Deus com o nome Pai. Se isso já era uma forma primitiva de se identificar as pessoas da Trindade, não ousaria me arriscar, mas aqui é provável que seja uma forma de se lembrar a questão da adoção de filhos (Gl 4.5), uma vez que a idéia corrente é a doutrina da eleição.

(2) 1 Pe 1.3, O novo nascimento é como a própria concretização da salvação presente na vida da pessoa, pelo simples fato de ser ele o divisor de águas da entrada no Reino de Deus (Jo 3.3).

(3) 1 Pe 1.3, viva esperança, no conceito bíblico, é uma esperança na herança que nos está preparada que é sempre renovada por Deus, pela confiança e poder que temos e recebemos dEle.

(4) 1 Pe 1.7, ouro que perece, no tempo neotestamentário, o ouro era tido como uma das posses mais preciosas, mas o escritor bíblico aqui diz que ele é algo perecível, isto é, não tem valor eterno. Nossa fé em Cristo, porém, tem peso eternal, pois é o meio pelo qual herdaremos o que o Pai tem preparado para nós.

(4) 1 Pe 1.10, profetas, Se este termo diz respeito aos profetas do AT, podemos afirmar que eles ainda viam de forma incompleta a salvação que hoje nós, cristãos, contemplamos e vivenciamos de forma completa.

(5) 1 Pe 1.12, vos pregaram o evangelho, engloga aqui não somente o anuncio da salvação feita pelos discípulos, mas provavelmente dentro do contexto que a realidade da salvação prometida pelos profetas e seu cumprimento pela obra de Cristo.

Contextualizando

(1) Por maiores que sejam as nossas provações, podemos nos alegrar pela presença vitoriosa do Cristo em nossas vidas nos trazendo a salvação. Deus é Maravilhoso!!!